quarta-feira, 30 de abril de 2008

Pelo tempo, em seu aspecto formal, astronômico, esta é uma noite de 3 de maio de 1986. A história, no entanto, sempre foi e sempre será um dinamismo complexo, sustentado por leis imutáveis. O objetivo da vida é a consciência progressiva de todas as formas da existência. A razão de todo existir é a perspectiva da consciência, seja um mineral, uma rosa, um partido político, uma civilização, uma estrela ou qualquer outro fato dentro ou não do nosso concebível. E nós? Em obediência às suas características, e de acordo com a lei do esforço, o Crato, como qualquer outra cidade, é um organismo coletivo com seu próprio processo de auto-superação. Pode existir, também um processo de estagnação, como produto anti-científico de uma sistemática aleatória. Até que ponto temos avançados numa psico-análise de nós mesmos? O que foi o Crato, ontem, está no subconsciente coletivo do Crato de hoje. A lógica assegura que tudo é uma continuidade. Em interação com essas experiências da cidade, em outros momentos ao longo da escala histórica; as recentes, oriundas do nosso atual consciente coletivo. Ressalte-se que a cidade também é percurtida pelo andamento da comunidade mundial, como célula da humanidade, e pelo comportamento do planeta em sua realidade físico-dinâmica, por indissociabilidade com a Terra. Amanhã, o Crato mesmo se auto-psicanalizará. E hoje, saberia responder por que os seus policiais são assim? É uma pergunta, e a resposta não pode ser simplória, dessas que se encontram à venda na turbulenta atmosfera do mundo contemporâneo. O Crato não tem sofrido, ultimamente, certos impactos, com os quais têm se defrontado e se defrontam várias cidades do Nordeste, como surtos de doenças e inudações. Há uma razão para o nosso não-desenvolvimento de solidariedade. Até que ponto não é um flagrante que questiona o nosso valor cultural? Até que ponto não traduz o nosso subdesenvolvimento numa prática essencial? A televisão, a todo instante, noticia mutirões por todo o país. E não nada gracioso reivindicar, por automático fruto de inércia, o zero no diagrama, multiracionalmente. Eis que é preciso levantar questões, sem violência, e com a compreensão abrir para o afeto das ondas de desenvolvimento, as praias de nossas lutas, sonho e trabalho. No mundo, a crise é generalizada, e, provalmente, beira o seu ponto crítico. A hora histórica vem falando, por todos os meios possíveis, a todas as comunidades para uma inadiável necessidade de transformação, sobretudo psicológicas. E, mesmo usando a linguagem dura das tragédias, acena para sermos mais espontâneos e harmonizados, a bem do nosso próprio futuro.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

complete aí

é bom pra nós
o sol
sua alegria
que ganha o dia
alô bom dia
e a rebeldia como é que está a estética?
vejo que você meu mundo
não está contente
e não é pelo sol poente
que nos deixa plangentes
é tão somente
pela falta de... complete aí
com o céu do cariri
essa pintura
brincando de colibri
apesar do frio e do fuyzil
creia na felicidade do anil

terça-feira, 22 de abril de 2008

deve estar sabendo o que faz
ou a energia sabe o que diz
o brasil cheio de cantos
nada senão o que somos
nada como o que seremos
syster deví
chão dos felizes

sábado, 19 de abril de 2008

Serpentes na Noite, memória de uma canção

Por Carlos Rafael

No início dos anos noventa, reunimo-nos no apartamento de Salatiel, para assistir o documentário “blues”, de Valter Salles Jr., transmitido pela Rede Manchete. O documentário trazia depoimentos e performances de velhos blueseiros norte-americanos, todos desconhecidos da mídia. Maravilhados e no clima do documentário, decidimos esticar a noite no restaurante Pau do Guarda, para beber e papear (Geraldo Urano bebeu Cola-Cola, sua bebida preferida). Aquele documentário mexeu profundamente com a gente, pois não conseguíamos sair do êxtase que se instaurou naquela noite.
Quando cheguei em casa, já no início da madrugada, escrevi uma letra inspirada naquele acontecimento. No dia seguinte, bem cedo, entreguei-a a Geraldo, que passou uma semana para devolver-me cantarolada (Geraldo a compôs sem auxílio de instrumento musical, mas somente com o coração, memorizando a melodia).
A música, anos depois, em 1994, foi classificada no histórico CHAMA (Chapada Musical do Araripe), que aconteceu no antigo aeroporto do Crato, em cima da Serra. Foi defendida, numa bela noite de lua cheia, pela banda Nacacunda (Eu, voz; Marcos Leonel, Luís Carlos Saraiva e Calazans Callou, guitarras, Igor Rocha, baixo; Cacheado, bateria e Antonio Carlos, percussão, com participação de Dihelson Mendonça, no teclado).
Apresentamos a música na noite que Hermeto Pascoal e grupo se apresentaram. Por conta disso, encontramos, nos camarins, Itiberê Zwarg, Carlos Malta e Márcio Bahia, respectivamente baixista, saxofonista e baterista do grupo de Hermeto, com os quais conversamos animadamente por alguns momentos. Lembro de Itiberê revelando que a profissão de músico lhe presenteava momentos como aquele, “num lugar bonito como esse, apreciando essa deliciosa bebida” (Itiberê bebericava uma dose de Xá-de-Flor, cachaça temperada feita pelo alquimista Blandino Lobo).
Por conta dessa agradável memória, transcrevo a letra da música, intitulada Serpentes na Noite (uma referência ao signo do zodíaco chinês, que eu, Geraldo e Salatiel temos em comum).

Baby, quero lhe dizer algo importante
Quando mais se cresce menor se fica
É o doce mistério da vida
E não há outra saída
Que não seja a porta dos fundos
Por onde você também pode entrar

Somos serpentes na noite
E isso é um tanto perigoso
É muito bom!
Já tomamos de tudo
Mas nada nos pegou
Se você quer me ver feliz
Toque um pouco de blues
Pinte a vida de azul

Sim, eu sou apenas um cantor de blues
Levando a vida num pagode
Mas sei que sou um rapaz de sorte
E sei que a morte
É só o último acorde de um blues

sexta-feira, 18 de abril de 2008

' Viagem à Mauridérnia"-

By Socorro Moreira

"Já conheço os passos dessa estrada..."

Pois era lá que eu morava... justo nesta época! Os dois (Rafael e Geraldo) , foram bater lá em casa, numa hora que nem lembro... Pareciam descomprometidos com qualquer missão... Estavam ébrios de vida: música e poesia!
Acho que fecharam a conta no Hotel São Damião, e se aninharam , no meu alpendre, onde rede e ventos, acolhiam sonhos e gentes!
Os dois se intimidaram na minha presença... Disseram pouco... Não ouvi nenhuma loa, que expressasse o momento... mas, a vontade que senti foi de adotá-los... Pena, que já eram filhos das mães... Uma delas, uma prima queridíssima por mim: Erice! Eita que saudades de Erice! Era doce de poesia! Um café com creme - a bruxinha mais querida do mundo! Imagina, se eu ia perder a oportunidade de adoçar a boca de Geraldo? E o Rafael ganhou a sobra de toda minha querência। Por isso talvez, esse menino (Rafael)... que ainda é um menino, pois nunca achei que cresceu! Crescer é deixar de ser criança... Crescer é perder... a ingênua beleza da infância! E é por tudo isso que a relação estre nós... sempre foi assim, meio tribal! Índios da tribo Cariri... com direito a Pajé, a Tupã, a cacique, com todos os aparatos, cores, flechas, arcos e curare!

Corações marcados e tatuados com o veneno benígno da boa camaradagem

Parque Municipal, anos 90


Foto: Pachelly JamacaruPosted by Picasa

Parque Municipal como era antes. Terreiro de Geraldo Urano e de toda uma rapaziada guerreira. Fazedora de jornais. Amante das artes. Quanta saudade.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

corte de pedra das matas do sul
sangue do meu colibri
letra lata guarani

um copo perdido em refrigerante
de doce gramatical amargas ondas irrigantes
giram a roda gigante

passam os gaiteiros tocando o hollywood
na laringe do vento
o choro do meu manequim

doce égua pelos pampas a lua corria
quase que eu viro lobo outro dia
a cidade só tem uma banda

terça-feira, 15 de abril de 2008

Prefácio do livro O Belo e a Fera (cantigas) - 1989

O poeta chega ao dia em que desperta e tem a certeza de que nunca adormecera. Olha o Sol e inicia um caminho de alguns poucos passos para beber na fonte cuja água lhe molha os pés, enquanto no peito dói a ânsia de sobrevoar o Universo, sem pátria e muito menos pouso certo.

Uma manhã de junho. Na Serra, esperança afoita, donde trinam pássaros coloridos, nas flanelas das bananeiras. O gado pasta indiferente ao triturar das moendas dos engenhos em começo de moagem. E as águas descem gorgolejantes as lajes da Cascata.

Frio bom, brisa gostosa e a música do estio. Uma solidão cúmplice a falar de planos maiores em elaboração na mente de Deus. O homem e a espera, qual centauro que abrisse os olhos pela primeira vez. Vê o Vale que desce das encostas, indo repousar lá embaixo, nas cidades esdrúxulas; minuto que voam em farejo do novo que nasceu.

O Cariri traz, em Geraldo Lima Batista, a escrita da renovação, mais do que poesia, vigília e certeza, aviso de preparação do Futuro.

José Emerson Monteiro Lacerda

domingo, 13 de abril de 2008

(carta a Luiz Adão)

Crato, 26 de 08 de 1987.

Caro Amigo Luiz Adão.

O mundo parece não dançar com as danças do mundo. E as minhas pernas em verdade parecem de pau. Meu sono é o de uma velha árvore desfolhada, dessas que não viram pássaros nem sorriso em volta de crianças. Sim, o meu cigarro queima como as florestas do vietnã, embora os dias já tenham enganado o relógio. Meu nome Urano já não é uma rede que me tire das águas pantanosas e o fio dental apenas resseca a minha memória. Não sei que geração me arranha entre os arranha-céus do grande jogo da humanidade. Sinto-me sem afeto e o açúcar perdeu-se nos canaviais. Resta a folha da cana que me corta o estar desperto. E o ribombar incômodo da calmaria cotidiana. Meu pai chega com dois pacotes de tang, o dos astronaustas; da Cooperativa dos Bancários. Enquanto minha mãe lendo uma revista diz que São Cipriano ainda foi bispo. Viveu numa época de perseguição como a nossa. A fita da máquina ainda está boa, respondo a papai.

Com um abraço:

Geraldo Urano

quinta-feira, 10 de abril de 2008

a arte da certeza


laser lírico das íris contemporâneas
ninguém se cansa
uma gargalhada é um elixir
e a baby solidão
um caminho de fogo entre as geleiras
liberando imagens
com a arte da certeza
abismos só os marinhos
coloridos primos das alturas sãs
és a flor que na praça espelhas
os aviões em tons de seda
e a plástica das sereias
na dureza da razão dos vídeos

terça-feira, 8 de abril de 2008

quem deterá os oceanos?


o planeta amarelo está em brasa
são os vulcões que se espalham
se eu dissesse
as moças de saigon
caminham pela noite azul da ásia
estaria mentindo
a primavera agora é só verdade
quem deterá os oceanos?
ou impedirá os rigores do inverno?
e essas cidades
para onde querem ir?
que crescimento besta é esse?

domingo, 6 de abril de 2008

a arca do amor

garota da funabem
eu sou de tropicalu
eu estava na encetur
quando você passou
nuvem do sul
torcedor que sou
dos tons de azul
horas depois
sua imagem surgiu ao meu lado
em acordes nisseis
afinal este é um país
com graça e cultura
e eu vascainês
como me disseram na dinamarca
vem aí um filme com a terra
a arca de amor

sexta-feira, 4 de abril de 2008

recado

abra sua blusa para o sol
caia na piscina das novas idéias

e vênus pelo céu
brilha na nudez da madrugada

de la paz na bolívia
a cidade mais alta do mundo
estou mandando pelo trem do vento
um recado pra você

não se apavore
são os anos oitenta que estão pintando

___

Pelo tom cronológico, essa é do início dos anos de 1980.
Detalhe: no original, datilografado em uma folha pautada de caderno escolar pequeno, uma anotação feita em esferográfica azul pelo autor: (musicada).

Por quem?

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Comentário sobre comentário de Marcos Leonel

Marcos Leonel - poeta, músico e professor de literatura, além de ser um dos membros desta neotribo cariri, da qual Geraldo Urano é um dos pajés - tem todas as credenciais para expressar uma abalizada análise sobre a obra do poeta.

E ele o fez, sobre o poema "mulher de azul", postado neste blog:

Antes de qualquer coisa, vale ressaltar uma das dívidas pagas para com esse poeta, ele precisa ser lido por mais leitores, com novos olhares, e esse blog faz justiça à importância desse poeta. Embora a sua produção seja desigual, esse é sem dúvidas o poema mais genial, mais original e mais consistente de Geraldo Urano, poeta que mudou tanto de nome e tão pouco de estilo. Esse poema é para ficar para sempre.

Pois bem, não há como discordar de Marcos Leonel, pois ele tá repleto de razões:

1ª) Ele (Geraldo Urano) é credor de uma dívida: sua obra é pouca conhecida e precisa ser mais divulgada;

2ª) A produção poética de Geraldo é desigual, pois ele nunca se preocupou em editá-la, mas sim produzir ininterruptamente na sua fase de maior criatividade (ou possibilidade de criar), que foi, sem dúvida o período que vai de meados da década de 1970 a meados da década de 1980. Por isso, a sua precupação era muito mais de expressar sentimentos e imagens do que modelar idéias e valores estéticos;

3ª) Geraldo foi um poeta que mudou muito de nome e pouco de estilo, apesar de que nesse monocromatismo ou minimalismo literário ser possível perceber uma grande variação estilística;

4ª) E, por fim, esse poema comentado por Marcos é realmente duca... genial, sensacional, que veio para ficar, sempre.

Carlos Rafael

terça-feira, 1 de abril de 2008

restos de hollywood


a humanidade olhou
para a lua e pensou
que fosse comprimido

Essas florestas grisalhas
os policiais nas ruas

meu cinzeiro está cheio
dos restos de hollywood
pra deus está tudo claro
pro diabo está escuro

sábado, 29 de março de 2008

mulher de azul


não vou matar a mulher de azul
que anda em todas as praias
e conhece todas as línguas
suas sete filhas estão na piscina
meus olhos se abrem
meu coração já não cabe mais na américa
e eu beijo a que em mim
mata o falso profeta
e me faz ver coisas da china
a mulher de azul
com seus cabelos de sol
e rosto de lua
quer vestir também de azul
todas essas meninas nuas
que morrem heroínas
e deixam os seus nomes nas ruas

quarta-feira, 26 de março de 2008

américa tua cintura me faz sonhar




carnaúba
cana cuba trem
foguete meu trenó
sou ingênuo engenhoso
a lua na maison de agosto
eu tenho gosto
trem pra cuba pelo ar
doce do mar
américa tua cintura
me faz sonhar
gravo a tua voz no disco solar
de amsterdã pra la paz
é uma ladeira danada
mamãe eu quero eu quero eu quero
eu quero jogar
nessas areias de açúcar queimado
de raios tropicais

terça-feira, 25 de março de 2008

quantas cidades


foi uma pequena cidade
hoje é crescida
caminhando escuto a voz dos muros
que em vários tons de tinta
anuncia os produtos de qualidade
e eu pergunto o que você sabe
das alegrias desconhecidas
dos homens de coração de qualidade
quantas cidades
milagres belfast dallas
da janela vejo um automóvel azul
com placa do cruzeiro do sul
baby eu tenho um defeito
que peguei com a filha do prefeito
fecho os olhos penso em deus
vou morrer com esse jeito

sábado, 22 de março de 2008

serenidade*


idade séria que tal serenidade
cantar na tal atualidade
com a nossa musicalidade
e o coração insiste na tal seriedade
só com música na tal cidade

itapuã itaparica tóquio tocantins
o sol do japão pegou um caminhão pro norte
corre o rio janeiro e o riso no carnaval
rosa de hiroshima não nasça no meu quintal


___

*Musicada por Cleivan Paiva e gravada no disco Guerra & Paz (Nação Cariri Discos, 1984)

sexta-feira, 14 de março de 2008



lá a barca

no mar

o amor a barca

leia no ar

na nudez do trânsito

um ônibus nada

feito um bonde das águas

o efeito balança

o corpo da terra

no rio da causa

e brilha a alma

nas janelas

por via aérea

normal

lá uma ave

quinta-feira, 13 de março de 2008

mina amarela



mina amarela
china de jeans
por que você você não me telefonou?
o dia todo fiquei pensando
sem pique para o trampo
a noite me encontrou
desestrelado
porque você jardim de pequim
nem me deu as caras
e agora já é madrugada

quarta-feira, 12 de março de 2008

é praibaro proibir

difere
eu kedere dizer
vértice
isto é
é diferente
portanto
insubserviente
ué disse
eu todos nós
enseuqssomindependente
é praibaro proibir
proibido é proiboro
yes ualqual consença
lhante
palabrniêva
iknon mols encompridiéva
ik aliásle kedere azuzial

terça-feira, 11 de março de 2008

mr. mistério


mr. mistério
suas mãos
seu banjo cor de avião
me lembre aquela canção
rusácea
ceia de som
do som que alimenta as araras
américa das graças
mr. mistério do bom
estamos no mês das graças

segunda-feira, 10 de março de 2008

uirapuru


uirapuru
aparece pra mim
vim te mostrar
o meu cocar
uirapuru
estrela que voa no céu do norte
bichinho vem me trazer sorte
essa cantiga
chegue ao teu peito de cantor
uirapuru
somos da mesma terra
nunca se acabe a selva
no cruzeiro do sul

sábado, 8 de março de 2008

a cor do lírio




era uma vez uma garota chamada comum
e um rapaz chamado idade
trabalhavam o látex
a terra no meio da estrelas e eles na terra
ela fazia a ceia doce aranha
cuja teia era pura mona

na manhã acampados em itacoatiara
e nada era dúbio porquanto pintura
quantos anos tinha comum
que era lisa
quantos anos tinha ele
monista e na itália e a itália navegava

as terras do kentak na chuva do carnaval
e o soviético que não entendia o carnaubal
lisa tinha relevo como a lua
naquela sociedade escura
embora em frente ao mar
o planeta foi ferido como uma gaivota no ar

a inveja tem um cheiro ruim
é preciso jogar tênis em vez de aparentar
e respeitar o embrião como estrela feita
os versos da terra são órbitas translativas
com a alma is not hindustrializada
o tempo chegou para toda comunidade

o luzir lírico da constelação portugal não esquecera
o chão bailante com seus corais saltimbancos
para onde vai o céu?
as pernas trêmulas do progresso
por açúcar em demasia é falta de respeito
por não interessar a certeza

quanta coisa jogada
mas o mais importante era ver claro
e quem via?
mas o tempo passando voou a gaivota
muito bonecos muita brincadeira
balas e mentiras cairam sobre os índios
nas terras do kentak

cálice e pétalas ao vento
mulatas lambidas pela bruma
ao féerico de um loar a toa
veneno nas praças e ruas
e as novas gerações assustadas
e a batucada aflita a sonhar esperança

os inteligentes perseguidos
pelas bestas de todas as partes
e a fauna em delírio a flora
e o ar marcado por esporas
a montanha de papel
fendida por um terremoto

sumiu a oração fechando os lábios
do sorriso e os olhos apertando
o desespero qual um grande exército
quem salvará a jamaica?
escreviam os repórteres mal dormidos
e os gemidos de canções nas grutas

pobre comum pobre idade
no litoral confuso de cimento
o sonhado rosto da justiça
em que reflexo virá
em que ondas embalado?
quando se pisará tranquilo o solo...
mona lisa mona lisa eis o kentak
sem comunhão
e comunidade a cabeça balançava
e desde a china a cara era a mesma
eram comuns os sentidos e tristes as tristezas
idades inteiras dormindo ou sonolentas

as cidades procuravam surpresas
o planeta perderá o seu programa?
haveria um mundo outro
sacudido como a terra entre as estrelas?
em águas tão altas via-se o oriente
que para o ocidente apontava

salve as musas de fogo
as sereias da tropicália
o branco a umbanda encantada
o coração cubano
o amor el salvador e o norte que não se apaga

ilha de marajó maracás fortaleza
uísque de minas gerais focas ingazeiras
iracema cearense américa grécia
o futuro com seu clarão
todos os injustiçados a paciência a coragem
a cavalaria poética com seus clarins

guaranás e seringueiras
pátria fé porta-bandeira
o certo e só o certo trabalho escola e soja
lugar de fronteira é no infinito
ouro frevo e descobertas
todas as cores e mais as novas

espiritualidade e coletividade
leve o vento para as terras do kentak
a praia nua a rocha firme
corações de vulcano
as esmeraldas interiores brilhem à flor do lago
hare hare


---
Poesia editada na forma de folheto de cordel e lançada, presumivelmente, em 1984. Xilogravura da capa: Stênio Diniz, grande Stênio Diniz.


sexta-feira, 7 de março de 2008

Deixe eu ir a liverpool



meu poema mais profundo
não foi escrito na arábia
asas para os povos
mamãe deixe eu ir a liverpool
resolver o problema da minha namorada
só quando a maçã for resolvida
o mundo reencontrará a estrada
ah mamãe me diga que país
ainda não saiu da estrada
e em que espelho perdemos
a infantilidade dos nossos olhos?
deixe eu ir a liverpool antes que se quebrem os ovos
diga ao nordeste que não se perca
pra que? com tanta luz na cabeça?
----
Este faz parte da profícua fase do início dos anos de 1980 do poeta, e tem uma curiosidade que me foi revelada por Deca (José Bezerra de Figueiredo Filho): o verso "mamãe deixa eu ir pra liverpool resolver o problema da minha namorada", foi dado por ele como mote a Geraldo para a composição do poema. Foi musicado por Luiz Carlos Salatiel e permanece inédito em registro fonográfico. Quando virou letra de canção, o poema sofreu algumas modificações, como inversão de palavras ("meu mais profundo poema" e "em que espelho perdemos os olhos de nossa infantilidade") e supressão do verso "antes que se quebrem os ovos".
Não sei como Salatiel intitulou o poema, que aparece sem título na cópia original. Por isso coloquei o verso "deixe eu ir pra liverpool", cidade natal dos Beatles, devido as explícitas referências ao grupo (além de Liverpool, Maçã, em alusão a Apple, a gravadora fundada pelos Beatles).
Carlos Rafael

quarta-feira, 5 de março de 2008

leia na minha camisa*


estrelas autênticas são raras
e falsos brilhantes abundam
na minha camisa
ela escreveu qualquer coisa
leia é bom!

há olhos castanhos e negros
sorrisos verdes e azuis
não queremos corações pequenos
sobre pernas bonitas
que isso fique claro como um sol
na minha camisa
ela escreveu qualquer coisa
leia é bom!

tudo livre e sério
como uma noite estrelada

*Parceria de Geraldo Urano e Luiz Carlos Salatiel gravada por Pachelly Jamacaru no seu segundo CD "Com as palavras, as músicas" (foto), gravado entre abril de 1999 e outubro de 2000, no DM Studio, Crato-CE, com direção musical de Dihelson Mendonça
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terça-feira, 4 de março de 2008

"canção para quem quiser ouvir"


a sinceridade ofusca o brilho do ouro
aos poucos o povo
deixará de ser um rato dos esgotos
mas somente aquele que procurar se erguer
como é com uma pessoa também é com o povo
quando a humildade desocupa um lugar
nele vai morar o veneno
a grande parte
sabe o que é estar em paz com o lixo
a verdade só chega pra quem quer
bendita é a raça que anseia
descansar a cabeça em seu ombro

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Nada de novo, a canção

Geraldo Urano é autor de algumas camposições nas quais ele fez tanto a letra como a música. Uma delas é Nada de Novo, que o banda Fator RH interpretou em alguns shows no final da década de 1980. A banda, formada em Crato, a partir do que sobrou da banda Pombos Urbanos (eu, Marcos Loenel e Sergestes Tocantins), durou de 1988 a 1990, quando deu origem à banda Lerfa Mu. Dela também faziam parte Leonardo Leo, Calazans Callou e João Eymard.
Nada de Novo passou a fazer parte do repertório da banda por sugestão de Luiz Carlos Salatiel, que sempre gostou de cantá-la nas rodas de violão nas noitadas homéricas e mesmo em algumas apresentações que fazia nos eventos por nós promovidos, como o Salão de Outubro. A melodia, a despeito da simplicidade harmônica e dos poucos acordes, é belíssima, tal qual a poesia. Um verdadeiro hino da nossa geração. (Carlos Rafael)

nada de novo
pelos corações modernos
os mesmos urubus de sempre
e as velhas raposas do medo
e no mundo
ilusões ultra-modernas
em grandes tiragens
como pede o apetite dos países
e as canções
há de vulgar cinzas
E os sorrisos
frágeis vasos de asas partidas
tudo não foi sempre assim
não foi nem será

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

só o silêncio pode explicar


todos os dias eles caminham muito
usando é claro
seus incansáveis carros

todos os dias eles combatem a sede
com a pureza dos refrigerantes

eu li
mas aquilo não era um livro
era apenas um best-seller

nações
tendes loucura pra dar e sobrar
e passa cantando o rio zembeze
tão lindo
que só o silêncio pode explicar

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

seja feliz*


seja feliz mastigando seu chiclete
enquanto lê
o seu falso profeta preferido

por enquanto
os insetos ainda caminham ao sol
com seus agradecimentos vazios

seja feliz
com toda sinceridade de moscou em seu peito
com toda paz de são paulo em seu peito

ainda quero
antes de entrar na piscina
dizer mais uma coisa
toda a poesia dos intelectuais
foi rejeitada
pela intuição da minha irmã mais nova
_____
* Poema musicado por Luiz Carlos Salatiel

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

nos olhos verdes da palmeira*


Foto: Carlos Rafael

nos olhos verdes da palmeira
no benares e em todo rio
no amarelo da banana da bananeira
a esperança é uma singela certeza.
ande comigo
e o vento esteja contigo
e o ouro esteja em teu brilho
meu coração não me deixe
a ver estrelas
nem contando carneiros
enquanto a inocência
nos procura no jardim.
brasil o que será de mim sem ela
e sem deus o que será de ti?
ah não!
agente não está indo de ré.

____

Nota

Uma característica de Geraldo Urano era não dar títulos aos seus poemas. Alguns deles foram intitulados pelos seus parceiros quando viraram letras de músicas. Neste blog, para efeito de arquivamento e localização, tomei a liberdade de também nomeá-los, utilizando, para isso, um dos versos do poema, geralmente o primeiro.

(Carlos Rafael, administrador).

sábado, 23 de fevereiro de 2008

oh joey


com sua voz disse:
- tenham o necessário para a noite!
oh joey
ele nem notou que já era noite
nossos antepassados
seguiram por um caminho silencioso
deixando para nós o grito
procure na lembrança
a águia voou no último raio da tarde
ela esperou até o último
oh joey
ele nem notou que já era noite
se nossas mulheres não fizeram o mel
com o amanhecer virá o último sol

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

toda manhã pode ser inesquecível


toda manhã pode ser inesquecível
toda tarde
ah como você me ensinou
ah você é inesquecível
com a palavra se pode fazer muito
a palavra é muito
mas muito pouco para falar de você
ah você é inesquecível
meu olhar sobe para o céu
para ler nas estrelas por que nos encontramos
o porquê está escrito nas estrelas
toda noite pode ser inesquecível
ah! como você me ensinou!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

falando sério



falando sério:
amor, qual é o mistério?
cruzei as pernas
em teu sorriso percebi alguma coisa.

talvez uma caravela
marinheiro do mar estou em terra.
não, enterrado não!
apenas sobressaltado
essa longa espera.
falando sério:
amor, qual é o mistério?
a porta do poder não está no mar
nem na terra.
está simplesmente perto.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Depoimento de Elmano Rodrigues sobre Geraldo Urano

Elmano Rodrigues, caririense de Farias Brito, hoje residindo em Brasília, onde trabalha na Editora da UNB, publicou, no blog cariricult.com, o seguinte depoimento sobre Geraldo Urano:

O Edifício Balança Mais Não Cai tem muito a ver com a figura impressionista de Geraldo Urano. Foi lá, nas suas meditações diárias, cercado pela vizinhança frenética de centenas de prostitutas, sem no entanto se deixar contaminar pelo esporte difundido nas redondezas, que aproveitou talvez, os seus melhores momentos de reflexão e concentração em direção a outros mundos e idéias.
Guardo do Geraldo, as melhores recordações de uma figura pura e estudiosa, que se concentrava, olhava, calava e guardava, no seu infinito, as imagens mais loucas dos seus parceiros de convivência, que perambularam e se confinavam pelos confins do conturbado e maravilhoso Estado da Guanabara.

Elmano Rodrigues Pinheiro

O Belo e a Fera (Cantigas)

Por volta de 1988, foi lançado o livro O Belo e a Fera, Cantigas, de Geraldo Urano, que na época assinava Lima Batista. Geraldo, desde fevereiro de 1986, estava em tratamento por distúrbios psiquiátricos, mas continuava firme com a sua produção poética.
José Bezerra de Figueiredo Filho, poeta e contista mais conhecido por Deca, grande amigo de Geraldo Urano, tomou para si a responsabilidade de editar um novo livro do poeta. O resultado é o belíssimo, porém angustiado O Belo e a Fera, que bem reflete o sofrido momento de Geraldo Urano.
O jornal Folha de Piqui, de agosto de 1989, publicou um poema do livro e um comentário de Deca , os quais são reproduzidos abaixo:

O poema

a fera é inteligente
e de grande formosura
fascina os homens
levando-os ao absurdo
por ela
eles se matam
já não ligam para o que fazem
tornam-se cegos e surdos


O comentário

O poeta cratense Geraldo Urano, que agora assina Lima Batista, tem feito de sua poesia suave uma batalha pela liberdade de sentimentos e expressão. Suas palavras têm o costume de desconcertar as pessoas com suas idéias soltas, mas que obedecem uma lei natural, formando um encaixe harmonioso numa geometria livre.
Neste livro, O BELO E A FERA, cantigas, que não objetiva horrorizar ninguém, Geraldo arruma as idéias GEOGRAFICAMENTE sem fronteiras, que para o intelecto adestrado pode parecer simplórias. "A arte virou uma culinária de escravos, seu objetivo é satisfazer o pladras dos glutões. Com passos de encomenda marcha com o orgulho dos mortos". É o que diz o poeta num trecho de suas cantigas, e com sua flecha torta acerta o alvo pelo lado menos esperado.

José Bezerra de Figueiredo

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Urano in blue

Através do Blog do Crato, Dedê (Wilton Soares) enviou a seguinte mensagem:


"Fizemos um Blue pra Geraldo, eu e o Maestro Lifanco.

URANO IN BLUE
(Ao poeta Gerando Urano)

ESTOU LOUCO
NUM BAR NAS BAHAMAS
LERDO, SOLTO,
ENTRE TEMAS E TRAMAS
NO BALCÃO DESSE BAR
MEIA LUZ, VIAJAR,
BECOS, BIAS, BAGANAS.
ESCREVO COM OS DEDOS
MIL LETRAS, MIL LOMBRAS.
AMORES, ENREDOS,
PECADOS E CAMAS
DESEJEI LAPIDAR
VERSOS SÓ PRÁ TE DAR
VELHA VIDA MUNDANA
ESTOU PRESO
IMERSO NAS CHAMAS.
DECIFRO SEGREDOS,
ESPANTO MEUS DRAMAS.
NA FUMAÇA VOAR
FEITO PENA NO AR
MARESIAS, BAHAMAS"

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Confederação dos Cariris, um marco na cultura regional


I Encontro dos Grupos Artístico-Culturais do Sul do Ceará
Mauriti, 28 a 30 de setembro de 1984
Geraldo Urano estava lá, como atesta a reportagem acima, publicada na edição de estréia do jornal Folha do Sul, de 6 de novembro de 1984. A legenda da foto diz: Salatiel (E) e Geraldo Urano cantam descontraidos durante o Encontro.
Neste jornal e nesta edição, eu estreava a coluna “In Procênio”, que publicou a seguinte nota sobre o lançamento do livro Vaga-Lumes:

Geraldo Urano, o papa da invenção caririense anuncia, aos sete acordes, o seu primeiro livro “Vaga-Lumes”. Composto nas gráficas da IOCE, o livro é mais um título do selo “Nação Cariri/Livraria Gabriel”. Foi escrito em meados de 82 quando, segundo Urano, o escuro da noite, a caminho da Nascente, era iluminado pelo brilho dos singelos vagalumes. Daí o título profético, mais do que um simples sinal luminoso. Quem ainda não conhece a produção de Geraldo Urano, eis o momento oportuno. Assim que o livro sair (deverá pousar por aqui no início de novembro), não perca tempo, adquira-o e penetre no mundo irreverente e evolutivo da poesia de Geraldo (...).

Salute poeteiro!

enola gay




o namorado de enola gay
não sabe que rosa cheirou
e a saga das sete gueixas
não é sobre o que ele fez
no japão tem muita moça
canta a brisa em sertanês
das estrelas que falam inglês
nem todas sabem libertês

troque suas sessenta camisas
por uma de número oitenta


N.R.: poema escrito em setembro de 1982 e musicado por Luiz Carlos Salatiel.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Vaga-Lumes, o Livro


1984. A Nação Cariri Editora lança Vaga-Lumes - primeiro livro individual de Geraldo Urano. Um livro de poesias com muitas histórias. Pretendo, pois, sem pressa, aproveitando a infinidade deste blog, contar algumas delas.
Vaga-Lumes veio a lume num momento muito especial para todos nós que fazíamos parte da "nova tribo cariri". Editávamos o jornal Folha de Piqui. Promovíamos eventos culturais (o famigerado Salão de Outubro era um deles). Fazíamos poesia, música, teatro. Vivíamos leves e fagueiros, na plenitude de nossa juventude. Celebrávamos a arte e a vida.
Um dos nossos palcos era o Parque Municipal (hoje, Praça Alexandre Arraes). Bebíamos no Bar de Aderbal. Matávamos o tempo na Praça da Sé. Fazíamos excursões para o Sítio Fundão, onde nos deleitávamos com a sabedoria do mestre Seu Jefferson Alencar e nos refrescávamos em deliciosos banhos no Rio Batateiras.
O poeta e cineasta Francis Vale era uma companhia recorrente, a despeito de resisidir em Fortaleza. Geraldo Urano o nomeou "Embaixador do Cariri", tal a afinidade que ele tinha para com a rapaziada da região; afinidade que se transformava em generoso apoio quando precisávamos dos seus préstimos na capital.
Por isso, Francis Vale foi convidado por Geraldo para escrever uma das orelhas de Vaga-Lumes, a qual transcrevo abaixo. (Carlos Rafael)

Como estrelas, os vaga-lumes precisam da escuridão da noite para fazer destacar suas cintilações. Outro poeta já havia destacado essa similitude e também a distância entre os pequenos e próximos insetos luminosos e os grandes e distantes astros.
Os vaga-lumes de Geraldo Urano falam das constelações e de coisas mais próximas, numa integração cósmica impressionante para um poeta do Cariri que tem as antenas ligadas com os mais longínquos pontos do Universo.
Há que se destacar, sobretudo, suas "tiradas" bem humoradas e satíricas em relação aos diversos significados das palavras a aos absurdos observados no dia a dia deste pequeno planeta Terra. Assim como: "a via-láctea não pode ser enlatada pela nestlé nem as estrelas de hollywood iluminam o céu da américa"; ou "ser preto na àfrica do sul é tão incômodo como ser bacalhau nos mares da noruega". Com toda a simplicidade e a perspicácia herdada dos primeiros repentistas cariris, passando pela verve do grande Patativa.
É possível que esses "vaga-lumes", com seu pisca-pisca irregular mas freqüente, consigam iluminar as cabeças atentas daqueles que perderem (ou ganharem) algum tempo observando sua luz.

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francis vale

Poesia de Agora*


1.
ouço as canções
as embriagadas canções da califórnia...

não critiquem de graça
antes se escutem
e Deus nos guarde de janeiro a dezembro da radiação

menina
uma passeata é uma coisa quente
mas não odiamos ninguém

2.
a sabedoria
a meiga sabedoria das mulheres
sabedoria sem palavras...
que se tem ensinado tanto
essa eu canto
como cantaria uma canção
falando de gatos
tenho aprendido muito com os gatos e com o vento

passado
é milho e a galinha já comeu
o vento
aponta o caminho e lá dentro...
uma saudade imensa do futuro

3.
minha nave é meu caminho
e o espaço as estradas do texas
"isso se eu quisesse fazer poesia"

agora
o que eu quero é uma garota
de qualquer nome de qualquer terra de qualquer fé
de cor suiça ou africana ou outra qualquer que queira cantar
__ todo sangue é vermelho
como é vermelha a cruz da "cruz vermelha"
e que esteja vendo
a pomba do futuro desafiando os fuzis...

4.
uma coisa é sonhar
um dia viajar de boeing
outra coisa é pensar
no que vai pelo coração das baleias
em seu coração
sabe que no mundo deles
baleia quer dizer dinheiro
e são capazes de confundir
rodelas de cenoura com moedas de ouro

uma coisa é discutir
a aparência das conservas
outra coisa é sofrer com as vacas o pesadelo das latas

5.
desce a noite sorrindo
na cordilheira de arranha-céus
e nas profundezas
as constelações cintilam
pelo espaço
o vento da cidade
ventando no colorido das saias
amando cabelo e olhares
passou acedendo os meus lábios
e cantam os habitantes
secretamente
a canção da resistência

6.
a lua cheia vagueia no céu de oslo
e nos mares...
lá embaixo os bacalhaus amaldiçoam a noruega

meu bumerangue passeia dentro da noite européia
e vê as filas
para a falsa vitamina dos filmes
a paz arribou de entre os pinheiros
e choram carvalhos e girassóis

7.
falar é bom
não vou estragar complicando
entender é muito saudável
e eu não voi ficar pensando
falo de lugares
porque a lua não é exclusiva de minha cidade
mas como outubro que é de todo ano

8.
a lua
é como outubro como sua roupa atrapalha
se sua roupa soubesse o quanto você é formosa
pediria mil desculpas aos meus olhos

9.
como ia dizendo...
um cara vai por uma estrada
dirigindo sua velha ford guerra
esse cara ingênuo e boa pessoa
como todo mundo também tem seus amigos
ai deus
eles acreditam que todos são amigos
ele vê
o asfalto firme na sua frente
e pelas janelas da camioneta
a plantação crescendo
e diz para o asfalto
__ meu nego está tudo em ordem
ah! mas eu estou sabendo...
ai esse mundo maravilhoso
que nos quer ver mortos

* Poesia de Agora é um livro que reune a produção de dezesseis poetas cearenses, organizado por Carneiro Portela e publicado pela Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, no ano de 1981. Geraldo Urano é um desses poetas e suas poesias sãos essas acima. Uma nota introdutória o define da seguinte maneira: "Poeta e compositor. Signo de Gêmeos. Nascido no Crato, Cariri-CE, na primeira metade dos anos cinqüenta. Iniciou a sua práxia poética na adolescência. Em 1972 abandonou os estudos 'oficiais' e viajou por vários estados do Brasil. Em 1973, regressou ao Cariri, onde participou do Grupo de Artes Por Exemplo. Participou de várias revistas e jornais literários. Em 1975 expõe objetos redimensionados na transcedência dos símbolos. Participou de 'shows' musicais e inicia uma série de parcerias famosas do Cariri. Revolucionou as tendências musicais da região. Escritor de textos filosóficos e iniciado na magia da natureza. Em 1979 participa do espetáculo 'Canto Cariri' (Teatro José de Alencar), por ocasião do 31º Congresso da SBPC. Tem desenvolvido seus trabalhos musicais com Luiz Carlos Salatiel e Pachelly Jamacaru. Publica alguns poemas na revista Seriará. Mora no Crato. É um dos fundadores do jornal Nação Cariri."

me procure em seu coração


me procure em seu coração
esse
é o meu endereço mais próximo
e onde
é mais certo você me encontrar
na sua cidade eu apenas nasci
e o mundo
tem muitas cidades
como o céu muitas estrelas
e como o vento estou sempre
em movimento
posso estar agora
no planalto central e logo mais
em detroit
por isso me procure em seu coração
onde é certo você me encontrar